‘Só uma noite’, foi o que ela pensou pela última vez tentando se convencer daquilo que ela estava prestes a fazer, o crime que estava prestes a cometer. Era só por uma noite, não poderia ser tão errado assim, poderia?
Olhou-se no espelho e checou mais uma vez como estava aparentando. Esplendida. Maravilhosa. Nunca havia se visto tão bonita quanto essa noite. A noite em que tudo mudaria, ou melhor, a noite em que tudo poderia mudar. Era melhor não pôr tanta pressão assim numa única ocasião. Seus seios pequeninos se encontravam de forma delicada no decote em V que havia conseguido, o vestido caia bem em seu corpo curvilíneo e suas unhas estavam bem pintadas. Nada poderia dar errado, era a saída de mestre para os problemas que estavam a perturbando. ‘Não vai fazer tão mal assim, vai? Uma noite só.’
Contrariava todas as suas doutrinas, éticas e dogmas pessoais estar ali naquela noite, com aquelas pessoas, fazendo aquilo. Era a primeira vez e provavelmente seria a última. Deixou pra lá todos os pensamentos equivocados e temerosos e entrou naquele táxi a fim de mudar de vez por todas o rumo da sua vida.
Ia ser a última vez que ela iria deixar de fazer algo por pensar em si mesma como alguém que não merecesse, ia ser a última vez que ia deixar outras pessoas falarem por ela, mesmo que por atitudes. Ia ser só a última vez em que ela seria notada por qualquer outra razão que não seus atributos físicos. Só assim que funcionaria a partir de agora.
Pediu que o motorista parasse um pouco antes da entrada pra que pegasse um trecho a pé, sempre gostara de andar com o vento nas costas, até mesmo pra entender melhor o que se passava debaixo de todos aqueles cabelos.
Definitivamente não era sono que estava sentindo, era uma dor pesada que fazia com que suas pálpebras doessem e seu andar ficasse ainda mais pesado. Eram os 19 anos de inércia finalmente ficando pra trás, precisava de um pouco de paciência com seu corpo e sua mente. Ficar em casa, deitada, remoendo, não adiantaria de muita coisa.
Aos poucos, avistava de longe a casa onde tudo aconteceria. O crime estava prestes a ser cometido, finalmente estava fazendo algo por si. Finalmente.
Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009
Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008
because it's new year's eve
harry: i love you.
sally: how do you expect me to respond to this?
harry: how about you love me, too?
sally: how about, i'm leaving.
harry: doesn't what i said mean anything to you?
sally: i'm sorry, harry. i know it's new year's eve. i know you're feeling lonely, but you just can't show up here, tell me you love me, and expect that to make everything all right. it doesn't work this way.
harry: well, how does it work?
sally: i don't know, but not this way.
harry: how about this way? i love that you get cold when it's seventy-one degrees out. i love that it takes you an hour and a half to order a sandwich. i love that you get a little crinkle above your nose when you're lookin' at me like i'm nuts. i love that after i spend the day with you, i can still smell your perfume on my clothes. and i love that you are the last person i want to talk to before i go to sleep at night. and it's not because i'm lonely. and it's not because it's new year's eve. i came here tonight because when you realize you want to spend the rest of your life with somebody, you want the rest of your life to start as soon as possible.
sally: (feeling manipulated but also melting) you see. that is just like you, harry. you say things like that, and you make it impossible for me to hate you, and i hate you, harry. i really hate you. i hate you.
Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008
No banco dos réus
A audiência estava em silêncio absoluto, não se ouvia um único suspiro ou muxoxo. As respirações estavam todas em uníssono e todos pareciam sintonizados numa mesma vibração. Concentrados e esperando descontroladamente por aquele resultado. Aquela sentença.
Mais a frente estava o juiz, forte, resistente, inabalável. Inquebrável. Tinha um olhar atento e direto, não hesitaria em condenar aquele réu e todos sabiam disso. Mas, ao mesmo tempo era fácil de localizar nele certa ternura e sapiência, muita sabedoria em lugar de uma simples inteligência, era um verdadeiro mestre, idoso, mas não senil. Vivído, mas não cansado.
Sentado, no canto esquerdo daquele tribunal estava ali, o advogado de defesa, frágil, com uma aparência ligeiramente chorosa e conturbada. Parecia ter acabado de passar por um turbilhão de sensações, e tudo lhe parecia fora de eixo. Uma cena incomum para um ambiente como aquele. Era notório que tinha acabado de fazer uma defesa, e em seu rosto ainda era podido ver toda a fúria que seu discurso guardara. Era bonito, era muito charmoso e jovem, muito jovem, havia um esboço de sorriso em suas lágrimas, que parecia poder ruir a qualquer momento. Sua certeza era impotente, e seu desejo de glória parecia subliminar diante de sua entrega àquele furor de emoções. Era volúvel, sensual e emanava a maior de todas as belezas, a da vontade e da juventude. Parecia que poderia queimar a qualquer momento, e suas lágrimas pareciam secar com uma velocidade muito rápida. Não era efêmero, era veloz, e arrebatador.
Já no canto direito estava o responsável pela acusação, e era nele que se podia ver a maior firmeza de todas. Era impassível, era inabalável e demonstrava, ao contrário do Meritíssimo Senhor Juiz, uma inteligência, uma sagacidade impecável, era astuto e capaz. Não era irônico, pois não era maldoso, era somente perspicaz e esperto. Sim, muito esperto. Sangue-frio não, mas consciente.
E de longe, a observar essa cena, em um banco, alto de mogno, estava ele, o réu. Seu olhar era fulminante e sua aparência poderia beirar a crueldade, mas por trás deste semblante estava indiscriminada uma sensibilidade e carência absurda, uma necessidade e anseio por atenção e notoriedade. Aparentemente, aquele julgamento, era uma espécie de vitória para aquele réu, enfim havia conseguido uma visão ampla e um brusco movimento por parte dos afetados.
Diante de todo o silêncio, uma perturbação tomou conta do réu, silêncio somente era permitido a ele se fosse corriqueiro e apropriado, mas aquele não, era aquele silêncio era medroso, da parte de todos, e isso não poderia acontecer, e então riu, nervosamente, mas sem cinismo, só com um leve deboche, um mecanismo ou uma válvula. E enfim, todos o olharam, mais uma vez, e isso fez o juiz finalmente acordar de uma espécie de transe que tivera olhando para a mesa do júri, não era indecisa a sua fase, era tão somente pesarosa, mas essencialmente sem perder a sua ternura.
E o silêncio tomou conta do tribunal novamente, todos sabiam que finalmente o veredicto seria dado e que por fim iria se saber o que estava nessa cruzada aparentemente sem fim, em dias de julgamento e muita aflição.
Seu olhar foi firme, e sua posição forte, e debaixo de muitas vaias e poucos aplausos, por fim, o Ciúme foi absolvido.
E o Amor, por fim, recolheu suas atas, deixando o recinto, onde a Paixão e a Razão se cumprimentavam e saiam em distintas direções opostas.
V. @ 23 de dezembro de 2007
Mais a frente estava o juiz, forte, resistente, inabalável. Inquebrável. Tinha um olhar atento e direto, não hesitaria em condenar aquele réu e todos sabiam disso. Mas, ao mesmo tempo era fácil de localizar nele certa ternura e sapiência, muita sabedoria em lugar de uma simples inteligência, era um verdadeiro mestre, idoso, mas não senil. Vivído, mas não cansado.
Sentado, no canto esquerdo daquele tribunal estava ali, o advogado de defesa, frágil, com uma aparência ligeiramente chorosa e conturbada. Parecia ter acabado de passar por um turbilhão de sensações, e tudo lhe parecia fora de eixo. Uma cena incomum para um ambiente como aquele. Era notório que tinha acabado de fazer uma defesa, e em seu rosto ainda era podido ver toda a fúria que seu discurso guardara. Era bonito, era muito charmoso e jovem, muito jovem, havia um esboço de sorriso em suas lágrimas, que parecia poder ruir a qualquer momento. Sua certeza era impotente, e seu desejo de glória parecia subliminar diante de sua entrega àquele furor de emoções. Era volúvel, sensual e emanava a maior de todas as belezas, a da vontade e da juventude. Parecia que poderia queimar a qualquer momento, e suas lágrimas pareciam secar com uma velocidade muito rápida. Não era efêmero, era veloz, e arrebatador.
Já no canto direito estava o responsável pela acusação, e era nele que se podia ver a maior firmeza de todas. Era impassível, era inabalável e demonstrava, ao contrário do Meritíssimo Senhor Juiz, uma inteligência, uma sagacidade impecável, era astuto e capaz. Não era irônico, pois não era maldoso, era somente perspicaz e esperto. Sim, muito esperto. Sangue-frio não, mas consciente.
E de longe, a observar essa cena, em um banco, alto de mogno, estava ele, o réu. Seu olhar era fulminante e sua aparência poderia beirar a crueldade, mas por trás deste semblante estava indiscriminada uma sensibilidade e carência absurda, uma necessidade e anseio por atenção e notoriedade. Aparentemente, aquele julgamento, era uma espécie de vitória para aquele réu, enfim havia conseguido uma visão ampla e um brusco movimento por parte dos afetados.
Diante de todo o silêncio, uma perturbação tomou conta do réu, silêncio somente era permitido a ele se fosse corriqueiro e apropriado, mas aquele não, era aquele silêncio era medroso, da parte de todos, e isso não poderia acontecer, e então riu, nervosamente, mas sem cinismo, só com um leve deboche, um mecanismo ou uma válvula. E enfim, todos o olharam, mais uma vez, e isso fez o juiz finalmente acordar de uma espécie de transe que tivera olhando para a mesa do júri, não era indecisa a sua fase, era tão somente pesarosa, mas essencialmente sem perder a sua ternura.
E o silêncio tomou conta do tribunal novamente, todos sabiam que finalmente o veredicto seria dado e que por fim iria se saber o que estava nessa cruzada aparentemente sem fim, em dias de julgamento e muita aflição.
Seu olhar foi firme, e sua posição forte, e debaixo de muitas vaias e poucos aplausos, por fim, o Ciúme foi absolvido.
E o Amor, por fim, recolheu suas atas, deixando o recinto, onde a Paixão e a Razão se cumprimentavam e saiam em distintas direções opostas.
V. @ 23 de dezembro de 2007
Domingo, 26 de Outubro de 2008
Aos 14
Eu devo tar ficando velha, preciso exercitar minha paciência. Porra, é muito engraçado voltar aos lugares que se ia há uns anos atrás depois de passado um tempo, por mais curto que seja.Tô ficando tão velha que tô evitando até me meter em muvucas com muitas pessoas em lugares que não sejam legais. Gosto ainda de ir em shows, mas tenho ficado muito irritada dentro de shopping center. Tô ficando velha mesmo, e nem dezoito eu tenho ainda.
É olhar as meninas com 12, 13 e ver que eu era meio assim e me achava superiormente interessante e cheia das diferenças maiores do mundo. Quando na verdade, não tem nada de muito original na pré-adolescência hoje em dia. E nem na pré-adultice dos 17 não, viu.
As pirralhas gritam por tudo, riem de tudo, gesticulam muito e mexem demais no cabelo. Porra, eu não queria tar assim não véi, acho que não chegou a idade da compaixão ainda, tomara que ela chegue, porque é uma merda ter vontade de enfiar essas pós-púberes numa caixinha e tudo mais.
Me sinto um cú de ficar achando essas coisas, até porque eu tenho certeza que vou achar o mesmo de mim daqui há bem pouco tempo, mas é que ter que ficar dentro de um shopping por mais de 5 horas ontem pra mim foi maior do que meus hormônios reguladores de temperatura puderam suportar. E eu ainda fui ver High School Musical, QUÃO FUDIDA AM I né vei.
Dá muita vontade de abraçar essas pirralhas e dizer pra elas que vai passar, véi. Que não precisa nem crescer muito pra começar a sentir preguiça de se cansar das coisas ou reclamar, ou que nem precisa ter lá maiores experiências de vida pra saber que não adianta você usar um botton do Led Zeppelin na mochila, VOCÊ NÃO VAI ARRUMAR UM NAMORADINHO POR CAUSA DISSO (essa foi a pior das minhas constatações), pessoas não vão gostar mais de você por causa da bem-boladez das suas pulseiras.

Dá vontade de dizer pra elas também que não é bom pintar tanto o cabelo com cores legais, vai ter uma hora que ele estragar bem muito e ficar que nem o meu, e vai ser meio irreversível, porque você vai sentir tanta preguiça de cuidar e vai se achar tão genial pelo fato de não querer saber do seu cabelo, que aí mesmo que não vai cuidar desse monte de pêlo em sua cabeça.
Crescer é legal, afinal de contas. Devo tar ficando muito reclamona, mas só sei de tudo isso porque há nem tanto tempo atrás era eu quem estava correndo afoita num shopping ou tentando anarquizar uma fila de cinema só pra pagar de mizerê.
Um grande agradecimento aos meus aturadores de 2005's e afins, e desde já aos aturadores dos 2008's.
Velha dá pra ficar, tomara que eu não fique rabugenta.
Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
Se eu soubesse...
Observei de longe algumas crianças. De alguma forma me pareciam entrosadas, interagiam entre si através de bonecos. Eram crianças com bonecos, cada qual com sua distinta característica sendo fortemente enfatizada através de gestos ou falas que davam vida àqueles seres inanimados.
O barulho não dava brecha em momento algum e por mais que aqueles bonecos parecessem interagir, soava muito mais como uma conversa entre o criado e sua criatura. Por estar um tanto distante, não pude ouvir com riqueza de detalhes o que se passava naquela roda, mas me lembro de ter escutado as palavras “atenção” e “certeza” muito mais de uma vez. A princípio apenas uma das crianças mantinha sua voz mais baixa, ponderando muito o que falar e abrindo espaço para que qualquer um soterrasse sua voz. Era acanhada, mas me parecia muito forte, como se tudo que fizesse à sua boneca fosse muitíssimo importante e cheio de razões.
Ela tentou interagir com as outras crianças, mas todas elas pareciam muito ocupadas, discutindo com suas próprias criações, que não parecia haver tempo para prestar atenção no que o outro dizia, por mais que esta outra criança chamasse seu nome. Até porque, quem chamava não parecia lá muito interessado em ouvir qualquer palavra senão as que saíssem de sua boca.
Continuei observando e apurei meus ouvidos a fim de entender o que a criança mais próxima dizia. Não obtive muito sucesso com a formação completa das palavras, mas tive certeza pelo seu semblante de que aquela criança estava perdida e até mesmo confusa. Não da forma padrão, mas daquela forma que só fui capaz de perceber por ter uma sensibilidade apurada e bem treinada. Decidi focar toda a minha atenção e bloquear qualquer estímulo que me impedisse de prestar atenção ao que aquela jovem criatura berrava vorazmente. Seus braços se mexiam freneticamente e seu rosto estava vermelho em ira. Ouvi-a gritar fortemente o nome das outras crianças olhando em seus olhos, mas as outras crianças estavam ocupadas e precisavam manter diálogo com seus respectivos bonecos e com pessoas as quais não davam a menor atenção. Seu rosto agora estava perdendo a cor e sua boca estava começando a afrouxar, de longe pude ver que havia pegado seu boneco e posto no colo e logo depois abraçado muito forte. O vermelho tomou conta do pálido novamente e dessa vez sua ira havia sido substituída por um aparente forte sentimento de culpa, agora lágrimas escorriam por suas bochechas lisas.
Não muito longe, havia outra criança. Como não havia reparado nela antes? Talvez por ser a única que não gesticulava ou gritava. Parecia esconder algo, parecia esconder muita coisa. Tinha um olhar pesado e sua pouca idade era quase substituída por um olhar quase que severo de tão firme. A doçura estava na forma que tocava em seu boneco, com a ponta dos dedos. Sussurrava um mantra inaudível e nem que todos se calassem seria capaz de ouvir da distância que me encontrava. Era um pedido de desculpas e eu percebi haver uma espécie de arrependimento na forma com que aquela criança acariciava seu boneco. Por vezes a vi levantar os olhos e voltá-los para as outras pessoas da roda, mas quando outra fazia o mesmo, ela se voltava à criatura. Sabia que demoraria muito tempo ali, logo, resolvi observar uma outra.
Me parecia tão confusa quanto aquela outra, mas ao contrário da voracidade com que a outra gritava, essa permanecia impassível e por mais que seu rosto denotasse lágrimas a caminho, sua mão era firme como uma pedra, a mesma mão que escondia seu rosto numa tentativa de mostrar firmeza. Estava certa que ao contrário da anterior, essa certamente mudaria o rumo da discussão logo que a primeira lágrima teimasse em cair, seria o fim de sua muralha.
Certa de que estava certa em minhas percepções, resolvi observar uma última criança que tinha acabado de levantar e colocar-se no centro da roda. Seu rosto era neutro quando se levantou. Ao sentar, fechou os olhos com veemência e logo que abriu, baixou os ombros rapidamente como se acabasse de receber todo o peso do mundo. Seu olhar era triste e ela parecia querer absorver tudo que estava ao seu redor. A vi ponderar sua voz ao gritar com ódio e tatear com carinho derramando lágrimas incessantes. Fiz menção de levantar e tive vontade de tirá-la daquele círculo de fogo e lamúrias, mas fui segurada por uma mão que empurrou meus ombros de volta a cadeira. Olhei quem havia feito tamanho disparate e, logo que percebi, sentei derrotada. Sabia que não podia interferir.
A criança parecia estar sofrendo e pedia atenção das outras, mas as outras pareciam bradar com sua boneca ou com seus próprios bonecos. Cada vez que ouvia seu nome, a do centro olhava com esperança, mas quando percebia ser para outro fim, baixava seus olhos e uma torrente de lágrimas caía.
Respirei fundo e percebi alguma delas se calando, como se fosse uma nova peste todos os outros olharam com aspereza para aquela subversiva. A que permanecia no centro mantinha seus olhos fechados e aparente distração com seus devaneios. Por conta de tamanha surpresa as outras crianças calaram-se também e diante daquele novo som ensurdecedor ajeitaram-se em suas posições, envergonhados com tamanha exposição e franqueza na falta de sons.
Agora quem havia fechado os olhos era eu. Transportei-me àquele momento, e ao abrir os olhos estava no centro do círculo e meus lábios mexiam incontroladamente palavras de tristeza, ódio, mágoa, mas principalmente palavras de amor. Era um grito desesperado, que somente agora, muito mais velha havia conseguido entender. Eram palavras desesperadas, saindo de alguém que não via sentido no que dizia e morria de medo de como seu sentimento tomava conta de suas ações e até mesmo de sua própria oratória. Percebi que agora os que me rodeavam prestavam atenção verdadeira àquilo que eu falava, e era a primeira vez também que prestava atenção na importância do silêncio deles. Depois do que me pareceu uma eternidade de verbetes, calei-me e esperei algum tipo de resposta ou ação para todos os questionamentos que havia lançado, todas as ofensas que havia profanado, todos os erros que havia cometido apenas verbalizando minhas próprias mentiras e confusões. Quando fechei a boca que me dei conta do mal que estava fazendo expondo todas as minhas questões e bombardeando terceiros com besteiras e complicações desnecessárias. Mas é claro que não sabia disso.
Dentro daquele corpo juvenil olhei ao meu redor esperando reações, e sem que nem eu mesma pudesse me dar conta, estava sendo envolta por braços, abraços e um montante de carinhos e palavras bonitas, que não pude fazer mais nada senão chorar. E chorei, senti o calor em meu rosto e ouvi o que não esperava ouvir.
Ainda com os olhos fechados, saí daquela atmosfera tão conhecida e familiar e voltei à minha cadeira de observação e distância, voltei também à maturidade e alguns anos de experiência. Logo que abri meus olhos, senti uma mão pesada em minha coxa e outra em meus ombros. Mesmo com algumas rugas era claro a ternura com que os que me acompanhavam naquela observação olhavam a si mesmos naquela roda. Palavras não eram necessárias. Havíamos aprendido a nos ouvir, havia demorado um bocado e muita coisa passou pra que descobríssemos o quanto o silêncio do outro é rico de insuficiências e não de segredos. Não havia segredos, havia identidades e gostosas verdades cheias de carinho. Era gostoso permanecer ali, sabendo que estava segura de olhar pro que um dia havia sido e ver quem havia me tornado. Era interessante ver o quanto eu guardava e o quanto era pesado o que carregava dentro de mim impelida de demonstrar. Morria de medo, como era bobinha.
A imagem a nossa frente foi se desfazendo aos poucos e só quando ela sumiu por completo nos olhamos em confidência. Todos ali sabiam o que havia acontecido e por tudo que havíamos passado, e aquilo fazia daquele silêncio tão especial. Era tão cheio de palavras que proferi-las era desnecessário. Era bonito, completo.
Eu queria ter descoberto tudo isso antes. Mas talvez não tivesse sido tão divertido todo o caminho, e com certeza não teria aprendido tanto.
Aqueles que me rodeavam eram filhos desses alicerces tortuosos e desse caminho cheio de obstáculos, eram tão cheio de cicatrizes quanto eu, cicatrizes as quais não se abririam jamais, haviam sido curadas. E tudo estava bem.
O barulho não dava brecha em momento algum e por mais que aqueles bonecos parecessem interagir, soava muito mais como uma conversa entre o criado e sua criatura. Por estar um tanto distante, não pude ouvir com riqueza de detalhes o que se passava naquela roda, mas me lembro de ter escutado as palavras “atenção” e “certeza” muito mais de uma vez. A princípio apenas uma das crianças mantinha sua voz mais baixa, ponderando muito o que falar e abrindo espaço para que qualquer um soterrasse sua voz. Era acanhada, mas me parecia muito forte, como se tudo que fizesse à sua boneca fosse muitíssimo importante e cheio de razões.
Ela tentou interagir com as outras crianças, mas todas elas pareciam muito ocupadas, discutindo com suas próprias criações, que não parecia haver tempo para prestar atenção no que o outro dizia, por mais que esta outra criança chamasse seu nome. Até porque, quem chamava não parecia lá muito interessado em ouvir qualquer palavra senão as que saíssem de sua boca.
Continuei observando e apurei meus ouvidos a fim de entender o que a criança mais próxima dizia. Não obtive muito sucesso com a formação completa das palavras, mas tive certeza pelo seu semblante de que aquela criança estava perdida e até mesmo confusa. Não da forma padrão, mas daquela forma que só fui capaz de perceber por ter uma sensibilidade apurada e bem treinada. Decidi focar toda a minha atenção e bloquear qualquer estímulo que me impedisse de prestar atenção ao que aquela jovem criatura berrava vorazmente. Seus braços se mexiam freneticamente e seu rosto estava vermelho em ira. Ouvi-a gritar fortemente o nome das outras crianças olhando em seus olhos, mas as outras crianças estavam ocupadas e precisavam manter diálogo com seus respectivos bonecos e com pessoas as quais não davam a menor atenção. Seu rosto agora estava perdendo a cor e sua boca estava começando a afrouxar, de longe pude ver que havia pegado seu boneco e posto no colo e logo depois abraçado muito forte. O vermelho tomou conta do pálido novamente e dessa vez sua ira havia sido substituída por um aparente forte sentimento de culpa, agora lágrimas escorriam por suas bochechas lisas.
Não muito longe, havia outra criança. Como não havia reparado nela antes? Talvez por ser a única que não gesticulava ou gritava. Parecia esconder algo, parecia esconder muita coisa. Tinha um olhar pesado e sua pouca idade era quase substituída por um olhar quase que severo de tão firme. A doçura estava na forma que tocava em seu boneco, com a ponta dos dedos. Sussurrava um mantra inaudível e nem que todos se calassem seria capaz de ouvir da distância que me encontrava. Era um pedido de desculpas e eu percebi haver uma espécie de arrependimento na forma com que aquela criança acariciava seu boneco. Por vezes a vi levantar os olhos e voltá-los para as outras pessoas da roda, mas quando outra fazia o mesmo, ela se voltava à criatura. Sabia que demoraria muito tempo ali, logo, resolvi observar uma outra.
Me parecia tão confusa quanto aquela outra, mas ao contrário da voracidade com que a outra gritava, essa permanecia impassível e por mais que seu rosto denotasse lágrimas a caminho, sua mão era firme como uma pedra, a mesma mão que escondia seu rosto numa tentativa de mostrar firmeza. Estava certa que ao contrário da anterior, essa certamente mudaria o rumo da discussão logo que a primeira lágrima teimasse em cair, seria o fim de sua muralha.
Certa de que estava certa em minhas percepções, resolvi observar uma última criança que tinha acabado de levantar e colocar-se no centro da roda. Seu rosto era neutro quando se levantou. Ao sentar, fechou os olhos com veemência e logo que abriu, baixou os ombros rapidamente como se acabasse de receber todo o peso do mundo. Seu olhar era triste e ela parecia querer absorver tudo que estava ao seu redor. A vi ponderar sua voz ao gritar com ódio e tatear com carinho derramando lágrimas incessantes. Fiz menção de levantar e tive vontade de tirá-la daquele círculo de fogo e lamúrias, mas fui segurada por uma mão que empurrou meus ombros de volta a cadeira. Olhei quem havia feito tamanho disparate e, logo que percebi, sentei derrotada. Sabia que não podia interferir.
A criança parecia estar sofrendo e pedia atenção das outras, mas as outras pareciam bradar com sua boneca ou com seus próprios bonecos. Cada vez que ouvia seu nome, a do centro olhava com esperança, mas quando percebia ser para outro fim, baixava seus olhos e uma torrente de lágrimas caía.
Respirei fundo e percebi alguma delas se calando, como se fosse uma nova peste todos os outros olharam com aspereza para aquela subversiva. A que permanecia no centro mantinha seus olhos fechados e aparente distração com seus devaneios. Por conta de tamanha surpresa as outras crianças calaram-se também e diante daquele novo som ensurdecedor ajeitaram-se em suas posições, envergonhados com tamanha exposição e franqueza na falta de sons.
Agora quem havia fechado os olhos era eu. Transportei-me àquele momento, e ao abrir os olhos estava no centro do círculo e meus lábios mexiam incontroladamente palavras de tristeza, ódio, mágoa, mas principalmente palavras de amor. Era um grito desesperado, que somente agora, muito mais velha havia conseguido entender. Eram palavras desesperadas, saindo de alguém que não via sentido no que dizia e morria de medo de como seu sentimento tomava conta de suas ações e até mesmo de sua própria oratória. Percebi que agora os que me rodeavam prestavam atenção verdadeira àquilo que eu falava, e era a primeira vez também que prestava atenção na importância do silêncio deles. Depois do que me pareceu uma eternidade de verbetes, calei-me e esperei algum tipo de resposta ou ação para todos os questionamentos que havia lançado, todas as ofensas que havia profanado, todos os erros que havia cometido apenas verbalizando minhas próprias mentiras e confusões. Quando fechei a boca que me dei conta do mal que estava fazendo expondo todas as minhas questões e bombardeando terceiros com besteiras e complicações desnecessárias. Mas é claro que não sabia disso.
Dentro daquele corpo juvenil olhei ao meu redor esperando reações, e sem que nem eu mesma pudesse me dar conta, estava sendo envolta por braços, abraços e um montante de carinhos e palavras bonitas, que não pude fazer mais nada senão chorar. E chorei, senti o calor em meu rosto e ouvi o que não esperava ouvir.
Ainda com os olhos fechados, saí daquela atmosfera tão conhecida e familiar e voltei à minha cadeira de observação e distância, voltei também à maturidade e alguns anos de experiência. Logo que abri meus olhos, senti uma mão pesada em minha coxa e outra em meus ombros. Mesmo com algumas rugas era claro a ternura com que os que me acompanhavam naquela observação olhavam a si mesmos naquela roda. Palavras não eram necessárias. Havíamos aprendido a nos ouvir, havia demorado um bocado e muita coisa passou pra que descobríssemos o quanto o silêncio do outro é rico de insuficiências e não de segredos. Não havia segredos, havia identidades e gostosas verdades cheias de carinho. Era gostoso permanecer ali, sabendo que estava segura de olhar pro que um dia havia sido e ver quem havia me tornado. Era interessante ver o quanto eu guardava e o quanto era pesado o que carregava dentro de mim impelida de demonstrar. Morria de medo, como era bobinha.
A imagem a nossa frente foi se desfazendo aos poucos e só quando ela sumiu por completo nos olhamos em confidência. Todos ali sabiam o que havia acontecido e por tudo que havíamos passado, e aquilo fazia daquele silêncio tão especial. Era tão cheio de palavras que proferi-las era desnecessário. Era bonito, completo.
Eu queria ter descoberto tudo isso antes. Mas talvez não tivesse sido tão divertido todo o caminho, e com certeza não teria aprendido tanto.
Aqueles que me rodeavam eram filhos desses alicerces tortuosos e desse caminho cheio de obstáculos, eram tão cheio de cicatrizes quanto eu, cicatrizes as quais não se abririam jamais, haviam sido curadas. E tudo estava bem.
Terça-feira, 9 de Setembro de 2008
NO MUNDO, ou melhor NO MONDE!
http://www.tv5.org/locaux/bresil/pop_programme.php?id=163428
(seriado) ONDES DE CHOC
A indústria química de uma pequena cidade do sul da França explode, causando mortes e ferimentos graves. Uma investigação é instaurada para determinar as responsabilidades. A catástrofe é reconstituída através do olhar de seis personagens.
Episódio 2: MarionMarion é uma jovem analfabeta, funcionária da limpeza da fábrica. No momento da explosão ela estava do lado de fora do depósito e participou do salvamento das primeiras vítimas. Mas logo ela passa da condição de heroína à de suspeita...
(seriado) ONDES DE CHOC
A indústria química de uma pequena cidade do sul da França explode, causando mortes e ferimentos graves. Uma investigação é instaurada para determinar as responsabilidades. A catástrofe é reconstituída através do olhar de seis personagens.
Episódio 2: MarionMarion é uma jovem analfabeta, funcionária da limpeza da fábrica. No momento da explosão ela estava do lado de fora do depósito e participou do salvamento das primeiras vítimas. Mas logo ela passa da condição de heroína à de suspeita...
Metalinguística seriamente fora de toda a brincadeira.
Eu detesto a cadeira do meu computador. E detesto ainda mais o fato dela não ser lá muito boa pra se escrever. Quando eu tento kung fusar minhas pernas pra arrumar uma boa posição ela praticamente apita e cria um letreiro enorme com dizeres em néon: SUA BUNDA É MAIOR QUE EU. SÁIA DAQUI, ANIMAL. Mas, eu não posso me render aos poderes imperialistas de uma cadeira de 20 anos e deixar de postar, ou qualquer coisa assim. Por mais que esse monte de plástico branco abaixo de mim tenha feito com que eu relutasse em abrir essa página de post, eu o fiz, simplesmente pra mostrar o quão auto-suficiente em petróleo e cadeiras eu sou.
Hoje, durante o quarto período, eu chamei Priscila, que tava na minha frente, e falei pra ela que ia tirar a tarde pra escrever. Era aula de química, pós-prova-que-me-fudi, então eu couldn't care less pra qualquer coisa que ele pudesse estar tentando me dizer e que iria vir a cobrar significantemente só em novembro (eis uma das coisas que eu mais adoro em terças feiras; essa sensação de completo poder que se tem depois de uma prova. É comer água, biscoitos recheados e só aparecer na escola na quinta). E, eu tinha acabado de sair de uma aula (creiam) boa de literatura que havia feito com que meu mini membro interior da ABL acordasse e me dissesse que eu deveria cumprir aquilo que eu disse que faria em outubro do ano passado; parar de reclamar e começar a verbalizar mais minhas coisetinhas.
E o mundo hoje parece sorrir o tempo todo; atravessando a rua, comprando salgados de frango e bebendo suco de cajá, tudo me parecia um tema adequadíssimo pra qualquer que fosse o que eu queria escrever quando disse à Priscila que queria escrever. Mas, para que haja um pouco de mudança na minha rotininha, obviamente, a superioridade da cadeira que reina SOB mim fez com que eu não lembrasse de absolutamente nada. E eu ainda insisto em não anotar minhas besteirices sem fim.
Descalça, tocando a campainha da casa de Renata às duas da tarde, e me lembro de ter pensando em mandar uma mensagem à qualquer pessoa pra que me dissesse uma palavra, e eu escrevesse alguma coisa emcima daquilo (afinal, o ABLinho que apitou hoje na aula não era lá dos mais exigentes... só queria saber de pular pra fora), mas quando abriram a porta e eu, com fones, não ouvi que ela não estava em casa e fui pro quarto dela pra constatar, obviamente me esqueci.
Mas, de um desses topiquinhos eu me lembro.
Minha mãe hoje, PUTA da vida, por algum motivo que meus fones não me permitiram entender, gesticulava freneticamente enquanto eu, no sofá da sala de TV, ouvia Strokes e lia Becky Bloom. Mas, o destino foi cruel com minh'alma e bondoso com ABLinho e fazendo com que minha batéria acabasse e eu ouvisse de mi madre os seguintes dizeres: 'fora de toda a brincadeira'. Que é uma expressão que ela usa quando quer enfatizar MUITO alguma coisa. É algo como o 'seriamente' que eu peguei de alguém e tô usando muito seriamente. Como o 'pra caralho' que as pessoas usam. Pra minha mãe, simplesmente é 'fora de toda a brincadeira'. E eu ouço isso há 17 anos. Seriamente. Daí eu, Becky e minha falta de cargas musicais começamos a pensar e descobrimos que além desse, minha mãe repete também 'Ai meu Cristo Redentor' sempre que precisa demonstrar enfado, raiva, alegria, amor, sono, ou qualquer outra emoção que esteja listada na psicanálise. E eu também ouço isso há 17 anos. E eu sei disso porque quando era um rebentinho pequeno eu costumava repetir distorcidamente 'Ai meu Cristo arrebentou!'. Mas aí alguém me disse que tava errado, ou que era feio, e eu parei né. Uma pena. Se usarmos uma vírgula depois do Cristo, fica genial. 'Ai meu Cristo, arrebentou'.
Mas, sem distorcer meu foco, devo dizer e devo temer a idade média, ou meia idade. Eu tenho certeza que meu 'genial' tão usado hoje, ou até mesmo o 'seriamente' vão-se embora muito seriamente em menos de dois meses, assim como tantas outras expressões geniais que passaram por mim nos últimos 17 anos.
Portanto, você, que estiver lendo isso em 9 de setembro de (CALCULADORA) 2025 e me ouvir genializando algo, muito seriamente me lembre do quão bom era ser jovem e poder renovar e diferenciar minhas expressões de enfado, para que meu enfado lembrasse doces fadinhas e não se arrebentasse na brincadeira imperialista que pode agir sob ele.
Ah... A acidez humana.
Hoje, durante o quarto período, eu chamei Priscila, que tava na minha frente, e falei pra ela que ia tirar a tarde pra escrever. Era aula de química, pós-prova-que-me-fudi, então eu couldn't care less pra qualquer coisa que ele pudesse estar tentando me dizer e que iria vir a cobrar significantemente só em novembro (eis uma das coisas que eu mais adoro em terças feiras; essa sensação de completo poder que se tem depois de uma prova. É comer água, biscoitos recheados e só aparecer na escola na quinta). E, eu tinha acabado de sair de uma aula (creiam) boa de literatura que havia feito com que meu mini membro interior da ABL acordasse e me dissesse que eu deveria cumprir aquilo que eu disse que faria em outubro do ano passado; parar de reclamar e começar a verbalizar mais minhas coisetinhas.
E o mundo hoje parece sorrir o tempo todo; atravessando a rua, comprando salgados de frango e bebendo suco de cajá, tudo me parecia um tema adequadíssimo pra qualquer que fosse o que eu queria escrever quando disse à Priscila que queria escrever. Mas, para que haja um pouco de mudança na minha rotininha, obviamente, a superioridade da cadeira que reina SOB mim fez com que eu não lembrasse de absolutamente nada. E eu ainda insisto em não anotar minhas besteirices sem fim.
Descalça, tocando a campainha da casa de Renata às duas da tarde, e me lembro de ter pensando em mandar uma mensagem à qualquer pessoa pra que me dissesse uma palavra, e eu escrevesse alguma coisa emcima daquilo (afinal, o ABLinho que apitou hoje na aula não era lá dos mais exigentes... só queria saber de pular pra fora), mas quando abriram a porta e eu, com fones, não ouvi que ela não estava em casa e fui pro quarto dela pra constatar, obviamente me esqueci.
Mas, de um desses topiquinhos eu me lembro.
Minha mãe hoje, PUTA da vida, por algum motivo que meus fones não me permitiram entender, gesticulava freneticamente enquanto eu, no sofá da sala de TV, ouvia Strokes e lia Becky Bloom. Mas, o destino foi cruel com minh'alma e bondoso com ABLinho e fazendo com que minha batéria acabasse e eu ouvisse de mi madre os seguintes dizeres: 'fora de toda a brincadeira'. Que é uma expressão que ela usa quando quer enfatizar MUITO alguma coisa. É algo como o 'seriamente' que eu peguei de alguém e tô usando muito seriamente. Como o 'pra caralho' que as pessoas usam. Pra minha mãe, simplesmente é 'fora de toda a brincadeira'. E eu ouço isso há 17 anos. Seriamente. Daí eu, Becky e minha falta de cargas musicais começamos a pensar e descobrimos que além desse, minha mãe repete também 'Ai meu Cristo Redentor' sempre que precisa demonstrar enfado, raiva, alegria, amor, sono, ou qualquer outra emoção que esteja listada na psicanálise. E eu também ouço isso há 17 anos. E eu sei disso porque quando era um rebentinho pequeno eu costumava repetir distorcidamente 'Ai meu Cristo arrebentou!'. Mas aí alguém me disse que tava errado, ou que era feio, e eu parei né. Uma pena. Se usarmos uma vírgula depois do Cristo, fica genial. 'Ai meu Cristo, arrebentou'.
Mas, sem distorcer meu foco, devo dizer e devo temer a idade média, ou meia idade. Eu tenho certeza que meu 'genial' tão usado hoje, ou até mesmo o 'seriamente' vão-se embora muito seriamente em menos de dois meses, assim como tantas outras expressões geniais que passaram por mim nos últimos 17 anos.
Portanto, você, que estiver lendo isso em 9 de setembro de (CALCULADORA) 2025 e me ouvir genializando algo, muito seriamente me lembre do quão bom era ser jovem e poder renovar e diferenciar minhas expressões de enfado, para que meu enfado lembrasse doces fadinhas e não se arrebentasse na brincadeira imperialista que pode agir sob ele.
Ah... A acidez humana.
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